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3 de junho de 2008

A cobiça sobre a Amazônia também é nossa - Marcelo Leite

Seringueira perto de Santarém, onde viveu Henry Wickham

Você anda preocupado com a cobiça internacional sobre a Amazônia? Acha doido um sueco que falou em comprá-la por US$ 50 bilhões? Está convencido de que todo gringo que se aventura na metade do território nacional a norte do Cerrado e a oesta da Caatinga é um Henry Wickham em potencial, aquele picareta que levou mais de 70 mil sementes de seringueiras de Santarém, em 1876, para os Kew Gardens de Londres, pondo fim décadas depois à farra dos barões da borracha?

Então leia no jornal O Estado de S.Paulo dois artigos lúcidos sobre a questão: "A cobiça que mais se deve temer", de Luiz Weis, e "A boa e velha malversação de hegemonia" (só para assinantes, aqui). Vão lhe dar muito o que pensar, se não estiver irremediavelmente convertido para a crença de que a única ameaça contra a maior floresta tropical do planeta (60% da qual por azar dela e sorte nossa se encontra no Brasil) está na conspiração de índios, ONGs, padres e estrangeiros mal-intencionados contra a nossa soberania.

Jefferson Péres, o mais admirado senador amazonense (por ser honesto!), que morreu há poucos dias, não rezava por esse credo, como destacou Weis de seu último discurso da tribuna do Senado. Disse Péres, no trecho colhido por Weis:



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Não tenho tanto medo da cobiça internacional sobre a Amazônia. Tenho medo da cobiça nacional sobre a Amazônia, da ação de madeireiros, de pecuaristas e de outros que podem provocar o holocausto ecológico naquela região.



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E, se já estiver com o jornalão paulista na mão, aproveite também para mais uma dose insuspeita de equilíbrio e lucidez no artigo "Marina Silva e as ideologias ambientalistas", de Paulo R. Haddad, professor do Ibmec/MG e ex-ministro do Planejamento e da Fazenda. Não consta que seja nenhum ecochato, xiita do PV nem abraçador de árvore, mas pensa com a própria cabeça e concluiu que "pragmatismo" não é uma gazua que serve para abrir qualquer porteira e deixar a boiada estourar:



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Quando surge um programa ou projeto específico que envolve o choque de interesses entre as burocracias, como nas hidrelétricas do Rio Madeira, é preciso que, por meio de pacientes processos de negociações e de compensações, se chegue a posições convergentes e consensualizadas, evitando-se a prática de métodos soviéticos no processo decisório e, ao mesmo tempo, ações avassaladoras sobre o que a natureza levou milênios para sedimentar. E é exatamente na gestão desses processos que a ministra Marina Silva demonstrou, com legitimidade política, grande maestria e a percepção do que realmente vale para a história do povo brasileiro e não apenas para um mandato presidencial.



Escrito por Marcelo Leite às 07h43


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